17 de abril de 2006


OPUS BROWN

A seita religiosa que mais amigos tem na banca portuguesa, para não mencionar em grupos de media e na organização que nos alegra semanalmente com o Euromilhões, veio pedir à Sony que, por amor de Jesus, não distribuisse o filme que lhe custou milhões de dólares a produzir.
Eu acho que uma ingenuidade destas (que só tem paralelo com a crença nas aparições e nas virgens sangradoras) mereceria a comoção dos proprietários japoneses. Mas enfim, se for exbido será por vontade de Deus. E quer a Opus Dei perceba ou não, os caminhos do Senhor são insondáveis.



INDIE LISBOA

É já na quinta-feira que começa a 3a edição do mais importante festival de cinema português, o Indie. Centenas de filmes, curtas e longas metragens, uma mostra de cinema sueco e novas secções especializadas, como o IndieMusic e o Laboratório (para o people MUUUITTO radical) vão criar um rodopio de gente na Avenida de Roma.
Para os mais portugueses, isto é, que guardam tudo para a hora, vou adiantando que a venda de bilhetes já abriu, as salas são de dimensão média, e que as meninas da bilheteira estão fartas de dar à unha... Enfim, cada um sabe de si (e Deus coitado é que tem que aguentar com todos). De 20 a 30 de Abril, nos cinemas King, Londres e Fórum Lisboa.
FÉRIAS DOS TRIBUNAIS - A SAGA CONTINUA

Uma juíza vai decidir se os juízes devem ou não ter dois meses de férias mais uma vez. A Associação Sindical para a Malandrice da Justiça (creio ser esta a denominação, mas posso estar errado...) interpôs um processo contra a ordem do Ministério da Justiça, que caberá à magistrada decidir.
Atendendo à escolha que os juízes fizeram do seu bastonário, tenho a certeza de que não haverá lugar para posições corporativistas...
(socorro!)
MANUAL DE DIREITOS DE AUTOR

Quem compra os manuais escolares sabe quanto é que custa cada um. Quem lida com o mundo editorial sabe que as maiores editoras nacionais são as que publicam os referidos manuais. São tiragens de milhares e milhares de livros de preço elevado e aquisição obrigatória.
Nomeadamente os de português.
Que, por enquanto, vão utilizando excertos do trabalho de escritores vivos. Esses excertos são lidos, comentados e servem de base de trabalho nas aulas. Até aqui, tudo em ordem... Não fosse o pequeno detalhe de não haver pagamento de direitos autorais. Ao arrepio da lei que estabelece claramente essa obrigação como contrapartida das editoras. Todo o livro tem custos. Nomeadamente o de remunerar os autores que o integram. Caberia ao ministério da educação verificar se o manual que acabam de aprovar leva em anexo, os contratos com os autores. Caso contrário estão a contribuir para um acto ilícito.

7 de abril de 2006

O PROGRAMA SEGUE DENTRO DE MOMENTOS

Amanhã vou para a província, por uns dias. Isto é, para Portugal no que tem de mais real. Hei-de ver as árvores em flor, as cabras que tentam comer as ervas através da rede e a vizinha campestre que, segurando um saquinho com ovos frescos na mão, me virá cumprimentar como se eu fosse um astronauta acabadinho de chegar de Vénus. O que num certo sentido até será verdade...


O DRAMA DA DENÚNCIA

Ainda há nos jornalistas nacionais sentimentos de grande inteligência e de luta contra a injustiça, neste país. Num espaço de duas semanas vejo-os brandir a espada do "Censura, Não!" (mesmo que seja para chamar putas a freiras. Se alguém lhe apetecer fazê-lo, desde que se reclame como "estudioso" ou "jornalista", tem todo o direito. Enfim..., adiante) e agora a do "Vem aí a Denúncia". Isto a propósito do ar um bocadinho assustado do ministro da saúde ao anunciar o P-R-O-J-E-C-T-O de lei anti-fumo. "Que era para proteger as pessoas no local de trabalho e tal... Se os amigos deixassem, ainda veriam que não era assim tão mau... e nós não somos más pessoas, quase tudo aqui fuma...a gente até pode ceder... Sempre são milhões de euros que a Tabaqueira arrecada e com os quais se poderão pagar tantos favores políticos dando cargos na administração e assim...". Os jornalistas iam-no fumando, confrontando-o com a pergunta se ele iria "denunciar" pessoas que visse a infringir a lei? E ele lá se defendeu como pôde.
Já uma posição mais clara tem o dirigente da bancada parlamentar do PS ,Ricardo Rodrigues. O homem é obrigado a concordar porque, segundo ele, é o que se faz lá para a Europa e a malta não tem voto na matéria mas "a proposta do Governo não pode ser feita com "fundamentalismo"". Ou seja, deveria ficar ao critério dos "toxicodependentes" (ou deveria usar "psicodependentes", já que se gosta mais de imaginar que a coisa não é química, embora o seja?) e dos que lucram com isto.


Toda a gente sabe o que eu penso. É óbvio que não se pode fumar em todo o lado. O tabaco liberta substâncias químicas prejudiciais para a saúde. Logo, cada um tem o direito de as enfiar para dentro do corpo , se lhe der na bolha, mas não de as espalhar. Tão simples como isto. Como se trata de uma dependência, logo, irracional, é necessário legislar.
Quantos dos que protestam gostariam de voltar uns anos atrás ao tempo em que as pessoas escarravam para o chão, os homens urinavam contra as paredes à vista de todos, e os penicos eram despejados na via pública? Que avancem, os que querem regredir.
De qualquer forma, não se zanguem, porque há muitos interesses económicos em jogo. Logo, a lei não avançará desta forma. Os lóbis que ganham com isto vão tentar reduzir os prejuízos, dilatar a aplicação da lei e de caminho, mais alguns de nós contrairemos doenças pulmonares à conta do "prazer" de alguns.
Oh meu Deus... Será que estas palavras me condenam como "Denunciante"?... Por outro lado... ninguém poderá ir contra, porque isso seria "Censura".
É bom viver num país onde tudo é tão claro.

6 de abril de 2006

COMENTAR É PRECISO

Tenho um bocado de saudades do tempo em que as pessoas se irritavam com algumas coisas que eu aqui escrevia. Havia nessa discordância, frequentemente, um entendimento diferente do mundo ou, muito simplesmente, uma má interpretação do post.
Milhares de pessoas visitam o prazer_inculto (algumas via google com a indicação "gajas boas", é certo - mas é uma minoria) por semana. Do mundo todo onde se fala ou se entende o português. E contudo pouca gente usa a caixa de comentários.
Fico sem saber se é pelo desinteresse do que aqui é dito ou se concordam em bloco.
Qualquer um dos casos é preocupante.

ps: se a razão tiver a ver com aquela charada de reproduzir as letras e os números não se deixem intimidar. Eu próprio passo por isso quando respondo a alguém. É pateta, mas evita o spam.

5 de abril de 2006

A LEI DA RONHA

Os funcionários judiciais estão indignados. O governo emitiu uma circular que os impede de falar de assuntos de serviço com a comunicação social.
De facto, é extraordinário: primeiro, acabaram com os dois meses de férias no Verão, agora estão a tentar retirar, a muitos, a fonte de rendimentos que é a venda de informações sobre os processos em julgamento, a jornalistas...
Qualquer dia, começam a querer que se deixem de merdas e comecem a despachar os triliões de processos.
É de mais.
Greve, já!


4 de abril de 2006

LANÇAMENTO

Nem só de lixo vive o mercado editorial português actual. Muito pelo contrário. Os bons saem regularmente. Passam é o tempo todo a desviar a cara das bostas e da indiferença dos seus contemporâneos.
Adiante.
Assim, refira-se o lançamento do livro de poemas do escritor e jornalista Fabrício Carpinejar. Nascido em Caxias do Sul (no estado do Rio Grande do Sul, bem lá no fundão - cosmopolita, porém - do Brasil), Fabrício publicará CAIXA DE SAPATOS, antologia de poesia, pela Quasi. Será no dia 12 de Abril, na FNAC Chiado, às 18h30, em Lisboa.
Portinglês

A introdução do Inglês desde os primeiros anos de escola pelo governo de Sócrates já está a dar resultados. Um artigo de economia do Diário de Notícias declarava: "De acordo com o reporte enviado pelo Governo...".
Espera-se que em breve para as entregas dos mesmos relatórios se siga o exemplo dos amigos brasileiros que já só falam "delivery".
Estamos deliverados à bicharada, é o que é...

3 de abril de 2006

O REFLUXO

Enquanto assisto a um episódio do "Verão Azul", tento explicar à minha filha por que razão o Pancho se dá ao trabalho de roubar uma égua branca e de arriscar a pele, apenas para cumprir o sonho de Bea. E não consigo. O tempo do romantismo acabou. O tempo dos ideais, do estender cordas para resgatar de uma falésia um desconhecido em risco escureceu.
Vêm-me à cabeça as palavras de um grande escritor amigo: "é o refluxo". Depois da generosidade e dos ideais dos anos 60 e 70 chega a "revanche" do materialismo. Nada dialético, por sinal. O tempo das vacas com pressa.
Nada será definitivo e o coração dos homens não se aguentará para sempre suspenso no seu próprio vazio.
Mas até lá parece que a noite não terá fim...

30 de março de 2006

FEIRA DO LIVRO MANUSEADO

Anualmente, uma das melhores editoras portuguesas coloca muitos livros fundamentais à venda, a preços de saldo. É a festa da Assírio que se recomenda, vivamente.

Na livraria da Assírio e Alvim, Rua Passos Manuel, 67 B


28 de março de 2006

MIGUEL ROCHA

Basta tropeçar num livro tão bom como O TEMPO DAS PAPOILAS, para nos lembrarmos do talento do autor de BD Miguel Rocha. Bom em qualquer parte do mundo.
Só um país em que o governo escolhe para o Ministério da Cultura, sistematicamente, gente inoperacial, porque nem ele, nem o país percebem bem para que é a coisa serve, é que um autor destes passa ignorado de um público alargado.
Saiam dos centros comerciais e abram os olhos, por amor da santinha!

BRASÍLIA

Amanhã, o escritor Alaor Barbosa lança mais um livro de contos e prosas reunidas. É no Bar Monumental, BSB, SHCE/SUL, Quadra 201, Bloco C, loja 33 (parece complicado, mas este despropósito de letras faz todo o sentido quando se navega entre as asas e a fuselagem do avião...). Além de óptima pessoa, é um muito bom escritor. Amigos candangos e afins, não percam a prosa.
Eu é que infelizmente estou longe.

27 de março de 2006

KAFKA À BEIRA-MAR

Tenho um gato a dormir à cabeceira. Colado na capa do último livro do Haruki Murakami, publicado entre nós (Casa das Letras). Pela dimensão do livro e a escassez de tempo, ainda vamos passar algum tempo juntos.
Recomendo vivamente. Mesmo para quem não gosta lá muito de felinos.

A EXPLICAÇÃO DOS PARDAIS

Perguntava-me quem seria este presidente de júri que acredita que um argumento chamado "O Enigma de Zulmira" vai ser uma revelação para o cinema português. Ou que considera a adaptação de um clássico da literatura neo-realista "Bastardos do Sol" (que só na edição do Círculo dos Leitores, vendeu 80.000 exemplares...), como "uma ideia desinteressante". E que, mais gravoso do que tudo isto, assina duas actas seguidas, de dois concursos distintos que atribuem dois subsídios ao mesmo filme, a saber "Rosebud", de Carlos Saboga. Perante a impassibilidade do presidente do ICAM, do secretário de Estado e, tanto quanto pude apurar, da maioria dos argumentistas concorrentes. Não se trata aqui de duvidar do interesse do projecto, mas da inépcia do presidente do júri que no espaço de duas semanas, "se esquece" que o Estado já apoiou um filme.
A explicação para esta desatenção sonhadora veio-me, da autobiografia do senhor. Escrita pelo seu punho e publicada no site do ICAM, para consulta pública. Reproduzo, com a devida vénia.

"Paulo da Rosária ? Escrita de Argumento
Como Publicitário exaltou o perfume e a cor dos vinhos do Dão. Como
Professor de Português chorou a rir, com os alunos e com os textos do O´Neill,
do Eça e do Camilo. Paulo da Rosária, Professor de Argumento na
Universidade Católica Portuguesa há cerca de oito anos mantém um olhar puro
na avaliação da fantasia que cabe à tradição da arte do contador de histórias.
Sempre ancorada na tradição e no conhecimento da cultura portuguesa.
Escreveu telenovelas, telefilmes, sitcoms, documentários, sketches
humorísticos. Sempre a pensar na avó, na mãe e nos filhos, que são três e na
mulher que é só uma."

(sic)

ps: enquanto os concursos forem colocados maioritariamente na mão de ineptos, escritores de 5a categoria, ex-directoras demitidas do Camões e obscuros professores universitários próximos, para não dizer gémeos, de lóbis como o da Escola de Cinema, ou da área "griliana", não há, repito, não há, a mínima hipótese de melhoria do cinema português.
Serei eu a estar errado, ou pedir às pessoas que sejam imparciais, que saibam ler um argumento, ou que percebam um pouco mais de cinema do que terem visto quinhentas vezes o "Titanic", seria o mínimo exigível para um tal dispêndio de fundos públicos?

24 de março de 2006


LIVROS PARA A CANALHADA

A literatura infantil portuguesa tem mais um livro. A partir da excelente ideia de que os miúdos são insuportáveis mais por natureza do que por mau feitio, Rita Taborda Duarte e Luís Henriques lançam pela Caminho, A FAMÍLIA DOS MACACOS.
Destaque para as excelentes ilustrações (e Deus sabe como eu sou esquisito com os ilustradores portugueses...).
O REGRESSO DOS GATOS

Se forem ao arquivo do blogue, que fez (pelo menos) 3 anos, este mês, verificarão que fui das primeiras pessoas a reconhecer publicamente o talento do Ricardo Araújo Pereira. Não foi preciso ser muito esperto para tal. Bastava ver um post dele no falecido Blog de Esquerda, anterior ao Gato Fedorento, para saltar à vista a rara mistura de humor, cultura, e tiro certeiro no boneca de feira. O que se seguiu, todos sabemos. E ainda bem para a gente todos.
Regressam hoje, pela mão da RTP. O que causa alguma inquietação... Enfim, espero que a contaminação não tenha sido excessiva.
Um abraço à equipa (que não lerá este post, mas enfim, cá fica o abraço, que nisto dos afectos somos tão sovinas, que nunca é de mais insistir).

ps: para o pessoal que mora lá fora, estou a referir-me a um programa de humor :)
DE CATAGUASES

Fica em Minas Gerais, Brasil. E de lá têm saído artistas vários, ao longo dos anos. Um deles, o meu amigo Ronaldo Cagiano, enviou-me esta foto. Tirada o ano passado, durante o I CINEPORT ? I Festival de Cinema de Língua Portuguesa, que este ano será em Lagos. Ao que parece, a organização é boa do lado de lá. Por cá, não sei. Vou até esquecer o preconceito de estar a ser organizado pelo autor de filmes pavorosos como "Inês de Portugal", ou o medonho "Preto e Branco". Talvez o senhor seja melhor a organizar filmes do que a fazê-los. Deus me ouça, que o povo de Minas merece.